Sábado, Fevereiro 11, 2012
Sábado, Janeiro 28, 2012
Quinta-feira, Dezembro 08, 2011
A CULTURA COMPENSA
A Opéra de Montpellier está em obras. E obras, como todos sabemos, significa tapumes. Este tapume que rodeia o edifício, com este e outros títulos com referências teatrais, é uma declaração pública do valor que a municipalidade reconhece ao património cultural. Na região há 120 teatros em actividade. Montpellier tem 2 salas de ópera em funcionamento. Por essas e por outras, Montpellier subiu em poucos anos do 32º lugar de entre as cidades francesas para o 8º.
Sábado, Outubro 22, 2011
Terça-feira, Outubro 18, 2011
O FILHO DO VALTER HUGO MÃE
Pela minha parte, temi que a revolução que o Valter Hugo Mãe imprimiu à sua literatura ao aderir às maiúsculas significasse, por qualquer motivo insondável, uma temível inversão de marcha na qualidade a que nos habituou desde o início da sua carreira. Quando deparei com o truque da pré-compra, com o livro em branco, confesso que fiquei ainda mais apreensiva, pensando que o marketingueiro tinha tomado o lugar do escritor e que procurava a todo o custo mascarar a falta de "o que dizer" com o "como dizer". Depois li o livro e fiquei tranquila. É Valter Hugo Mãe em pleno. Está lá tudo aquilo de que gostámos (e sei que somos muitos a gostar) nas suas obras anteriores. Com alma, coração, bom gosto e talento. Portanto, resta-nos ficar à espera que este "Filho de Mil Homens" tenha muitos irmãos, para bem de todos nós, porque as famílias numerosas, naturais ou menos convencionais, são uma riqueza - é o Valter que nos diz, com o seu talento confirmado!
Terça-feira, Setembro 20, 2011
Sardinhas & Cinema
foto d'aqui
Não gosto de sopa, mas gosto de sardinhas. Gosto mesmo muito de sardinhas. E o que têm as sardinhas a ver com o cinema?
O Manuel Guimarães foi um grande homem de cinema, um realizador que, infelizmente, não tem visto reconhecido o seu mérito, seriedade e talento. Graças ao esforço da Costa do Castelo, a sua obra teve recentemente edição em DVD e os que o não conhecem têm agora a oportunidade de ver filmes como Nazaré, Vidas sem Rumo ou Saltimbancos, que só foi possível concluir após violentos cortes impostos pela censura, resultando numa obra estranhamente críptica. Falecido a 29 de Janeiro de 1975, Guimarães teve pouco tempo de vida para criar em liberdade, mas a sua obra merece um olhar atento e merece ser descoberta pelas gerações mais novas.
Para além de um notável cineasta, o Manuel Guimarães era um homem maravilhoso, um grande amigo e meu padrinho de casamento. Ele e a sua mulher eram uma companhia excelente e, quando se tratava de "comes e bebes", então nem se fala! Foi com ele que comi pela primeira vez papas de sarrabulho, na Flor dos Congregados, no Porto (ele era homem do norte) e para sempre lhe fico grata pela descoberta.
Mas, e afinal, a que vêm as sardinhas?
Foi numa noite de Santo António, em Alfama, num grupo animado. Eu pedi febras. O Manel espantou-se: "E então as sardinhas?" E eu: "Nunca comi, não gosto..." "Tenha mas é juízo e coma sardinhas! Ora esta!"
E afinal gosto de sardinhas. Gosto imenso de sardinhas. Nunca mais deixei de as comer, pontualmente, todos os anos pelo Santo António e por todos os outros santos enquanto dura o tempo delas. Comi este fim de semana umas excelentes, gordinhas, bem assadas, a largar a pele. A época já deve estar a chegar ao fim, mas para o ano há mais.
Obrigada, Manuel Guimarães!
Terça-feira, Setembro 13, 2011
Corta-se na cultura? Mata-se a cultura? "Ai minha pátria bela e perdida"
No dia 12 de Março deste ano, a Itália festejou o 150º aniversário da sua unificação.
Entre as muitas comemorações, foi apresentada na Ópera de Roma "Nabucco", de Giuseppi Verdi, dirigida pelo maestro Ricardo Muti.
No início do espectáculo, Gianni Alemanno, presidente da câmara municipal de Roma, membro do governo de Berlusconi, usou da palavra num discurso político onde referiu os cortes que o governo se vira obrigado a fazer no orçamento para a cultura.
De seguida, o público assistiu à representação da ópera. Nada a assinalar, até ao famoso coro Va Pensiero, em que os escravos cantam "Ó pátria minha, bela e perdida..." .
Aí deixemos falar a gravação e o maestro Ricardo Muti. Vale a pena.
Apenas uma única vez Muti havia aceitado fazer um bis de Va Pensiero, no Scala de Milão, em 1986, já que a peça exige que seja executada do princípio ao fim, sem interrupções. Muti não queria fazer apenas um bis, teria que haver uma intenção especial para fazê-lo. Então, voltou-se para o público - entre o qual se encontrava Berlusconi - e disse: "Logo que cessaram os gritos de bis, vocês começaram a gritar "longa vida à Itália!". Sim, de acordo: longa vida à Itália. Mas... Já não tenho trinta anos e já vivi a minha vida. Andei pelo mundo todo e, hoje, tenho vergonha do que acontece no meu país. Por isso, vou aceitar os pedidos para bisar Va Pensiero. Não só pela alegria patriótica que sinto neste momento mas, porque enquanto dirigia o coro que cantava "Ai minha pátria bela e perdida" pensei que, se continuarmos assim, vamos matar a cultura sobre a qual erguemos a história da Itália. E, nesse caso, a nossa pátria também estaria bela e perdida. Durante anos mantive a boca fechada mas agora creio que precisaríamos de dar sentido a este canto: estamos na nossa casa, o Teatro de Roma, com o coro que cantou magnificamente e com a orquestra que o acompanhou esplendidamente. Se quiserem, proponho que vocês que se unam a nós para que cantemos todos juntos".
Uma boa surpresa
Normalmente sou uma leitora atenta ao que se escreve e edita, principalmente em Portugal. Leio muito. Direi mesmo que leio compulsivamente. Leio até bula de medicamento e manual de instruções. E, no entanto, não conhecia José Rentes de Carvalho. Culpa minha, por distracção, mas culpa também, não tenho dúvida, da oferta editorial portuguesa, que nunca me tinha cativado para o autor. Regozijo-me, pois, por a Quetzal ter agora dado merecida visibilidade a este Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia.
Trata-se de uma recolha de contos, que por vezes se assemelham mais a crónicas daquelas em que os brasileiros são exímios, e que, no caso de Rentes de Carvalho, nos levam, num português rico e bem apaladado com o sabor da melhor tradição literária (o próprio confessa que Eça é e será sempre o seu preferido), por recordações e ficções sugeridas pelo tempo já muito vivido de Rentes de Carvalho.
São trinta histórias que se lêm com um prazer por vezes divertido e por vezes emocionado, quase sem se dar por isso. Viajamos por lugares que são muito nossos - Lisboa do Chiado, as aldeias do Minho e do Douro, Paris dos portugueses, o Rio e S. Paulo - e muito dele - a Holanda, onde tem vivido grande parte da sua vida.
Um dos aspectos mais fascinantes da escrita de Rentes de Carvalho é a extrema flexibilidade com que ela se "cola" ao local onde decorre a história, o mimetismo que nos vicia na narrativa, nos prende e nos faz viajar. E, com a crise que por aqui vai, Deus seja louvado pelos escritores que nos fazem viajar.
José Rentes de Carvalho nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1930. Frequentou o curso de Românicas e Direito em Lisboa. Teve de deixar o país devido a motivos políticos, tendo vivido no Rio de Janeiro, em São Paulo, Nova Iorque e Paris e, trabalhado para publicações como O Estado de São Paulo, O Globo e a revista O Cruzeiro. Licenciou-se na Universidade de Amesterdão, onde foi docente de Literatura Portuguesa entre 1964 e 1988. É autor de livros como Montedor (1968), O Rebate (1971), A Sétima Onda (1984), Ernestina (1998), A Amante Holandesa (2003) e Portugal - Um Guia para Amigos (1988).
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