
.






Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
Eugénio de Andrade
.

E depois chega a meia noite. E o céu explode em fogo de estrelas, cascatas, flores de luz que se abrem, vermelho, verde, azul, dourado, branco. A explosão parece não ter fim, ensurdece-nos o estrondo dos morteiros. Todos os olhos estão voltados para o céu, em festa, crianças de novo, por uns momentos, num deslumbramento que por muitas vezes que se repita nos põe sempre a alma em festa. As máquinas fotográficas disparam feitas loucas, sem conseguirem captar o momento mágico, demasiado efémero, mas aproximando-se muito. Os telemóveis, de mais ou menos moderna geração, andam numa roda viva ansiosa. "Ali, olha ali!". "Estás todo desenquadrado... dá cá... assim, com o fogo atrás!". "Apanhaste aquela grande, vermelha?". "Vê-se alguma coisa?". E por todo o lado, como se nos fosse devorar, a explosão de luz e cor.
Foto: Blog de João Quintino: http://www.sabugibyjq.zip.net/ 
.Tudo tem o seu lado positivo. Há vários anos que não passava o Santo António em Portugal, isto sempre por uma boa causa, é verdade. Este ano as coisas saíram do que estava previsto, mas passar o Santo António em Lisboa é uma alegria! Um bom Santo António para todos, com tudo a que têm direito: sardinhas, mangericos, pimentos, arraial, marchas e, acima de tudo, muita saúde. Milagres? Talvez. Pelo sim, pelo não fica aqui a fórmula (dizem que é infalível...)
..
ilustração retirada de um "Drácula" vintage


O coração bate, às vezes bate demais e depois, às vezes quase pára. E questiona-se tudo. E perguntamo-nos onde estão as coisas. Quais coisas? As que nem nome têm, de tão certas. E as palavras, as estúpidas das palavras, inúteis, desbotadas, desajustadas, como fatos apertados e fora de moda. Julgávamos que as palavras estavam subentendidas e eternas, a desempenhar o seu papel, no seu lugar no sofá da sala quando chega a hora de acender a luz e ligar a tv.
E depois dizes-me que não, meu amor, que afinal as palvras eram outras. E que remédio tenho eu senão acreditar.

Uma boa iniciativa, esta. Quando a crise faz apertar as carteiras, o Guia dos Teatros leva os seus leitores ao teatro, de borla! A não perder. Basta estar atento ao Guia e ser rápido na resposta. Consta que Peça para Dois é só um princípio - aliás um bom princípio: um excelente texto de Tennessee Williams, pouco conhecido, numa boa versão portuguesa e com dois bons actores - mais teatros vão associar-se a esta iniciativa. Esteja atento!