Desde que o Lauro António deixou o desafio que eu tenho andado a pensar nos tais livros que não mudaram a minha vida. Não é fácil tarefa, até porque não me lembro deles. A lista telefónica de Lisboa? O Pantagruel? O manual de instruções do fax?
Por outro lado, quanto mais penso, mais "eles" se infiltram nos meus pensamentos. "Eles", os que mudaram alguma coisa na minha vida. E como a estes desafios se responde subvertendo-os (não é assim?), aqui ficam os responsáveis pelo que (mal ou bem) "eles" mudaram em mim.
Creio poder começar pela Condessa de Ségur (na colecção azul, bem entendido). Foi com "Os Desastres de Sofia" que aprendi a gostar de ler. Foi a invenção da leitura. Marcou. Só podia.
Depois será justo referir Jules Verne. Com ele descobri que o mundo é infinito como a imaginação humana. Li-o todo, numa colecção de capa vermelha com ilustrações magníficas, que habitava - e continua a habitar - na prateleira mais alta da estante do meu pai. Não sou muito dada a monumentos fúnebres, mas gosto de saber que os restos mortais de Jules Verne continuam sob o signo da aventura.

Hemingway foi talvez o primeiro autor "moderno" que li ("primeiro, os clássicos"). Deu-me uma outra dimensão da literatura. Era desmedido, violento, poderoso. A chamada "linguagem literária" ganhou outra dimensão.
Estavam a começar os anos 60 quando um (jovem) autor português publicava aquele que ia ser um livro de culto de geração. Refiro-me a Augusto Abelaira e a "A Cidade das Flores". O romance de Rosabianca e Giovanni ainda hoje permanece na minha memória como uma janela que se abria para a liberdade e para a vida.
Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. Poderiam ter mudado a minha vida. Era o fascínio de Paris, do Café de Flore, do Marais, de uma intelectualidade de esquerda, do "Deuxième Sexe", das "Mains Sales". No entanto, o fascínio não resistiu à erosão.
Mas depois foi a descoberta de Marguerite Duras e essa, sim, mudou a minha forma de entender a literatura e também a sua interacção com o cinema. "India Song", "Le Ravissement de Lol Valérie Stein", "Le Vice-Consul" e tantos outros tornaram-se títulos mágicos. E assim irão ficar.
Vergílio Ferreira. Mudou parte da minha vida. O homem e a obra. Tenho saudades de conversar com ele, de o ouvir na melodia de uma autobiografia, "Nasci em Melo, na Serra da Estrela...", capturado num filme do Lauro António.
Paul Auster, Enrique Vilas-Matas, Haruki Murakami. Muito recentes para saber as marcas que deixarão. Para já, são o meu vício, o meu prazer.



António Lobo Antunes. Sem dúvida. Mudou toda a música do que é a literatura. É uma sinfonia sem medida. Ninguém escreve como ele. É ele próprio que o diz. E é capaz de ter razão.
Pronto, são dez. Não obrigatoriamente os livros da minha vida, como é óbvio. Não são sequer os autores da minha vida, com algumas excepções. Faltam muitos muito importantes, definitivos e imensos. Mas são os que me lembro de terem alterado alguma coisa bem dentro de mim. De terem deixado marca para sempre.
Era isto, Lauro?