Quando fui dormir, lá para as cinco da manhã deste domingo, com a barriguinha bem cheia com alguns episódios da 3ª série de Anatomia de Grey, que o Pai Natal teve a generosidade de me trazer, não imaginava que o telefone me ia despertar daí a menos de quatro horas. Numa transição brusca da ficção para a realidade, informavam-me de que uma pessoa de família, de idade avançada, fora encontrada inanimada em casa onde, devido à sua incomensurável teimosia, vive sozinha. O hospital da área da acidentada é o Curry Cabral e para lá nos dirigimos, após rápida e eficientíssima intervenção do INEM.
Péssimo julgamento meu: "sente-se e espere. Na sala". A sala é um eufemismo pois antes se assemelha a um recanto do corredor com meia dúzia de cadeiras de plástico e um biombo de pano a dividi-la dos tais serviços de urgência. Nessa sala permaneci durante oito horas, sem comer nem beber, não fosse alguém chamar pelos "acompanhantes de Fulana de Tal" e eu perder a oportunidade de um milhão de dólares (vi casos e, digo desde já, não queiram estar no lugar deles!). Tentei várias vezes penetrar no santuário das urgências, servindo-me dos mais óbvios argumentos, tais como as "modernas" teorias de que os doentes estão melhor quando acompanhados por alguém de família, que se calhar eu dispunha de elementos importantes, que se eu pudesse falar com um médico talvez... enfim, tudo em vão. As senhoras da recepção (muito prestáveis) acabaram por levar uma espécie de requisição (eram 4 da tarde) "lá dentro" a pedir que me fosse permitido falar com um médico, o que veio efectivamente a acontecer (cerca de 7 horas e meia após a entrada da doente). A médica era jovem, muito agradável, simpática, interessada, muito profissional e com um olhar inteligente e cúmplice "convidou-me" a reparar bem no serviço de urgências, na escassez de espaço, na ausência de recursos, enfim, em tudo o que torna impossível, fisicamente impossível, que aquele espaço seja partilhado por doentes, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, toda a equipa do Seattle Grace e, ainda por cima, os familiares dos doentes.
Compreendi. Só não compreendo porque é que chamam àquele corredor serviço de urgências. Eu gostava muito de ter uma piscina em casa, mas não é por isso que me ponho a chamar piscina à banheira.Enquanto a minha filha preenchia o livro de reclamações, a doente foi-me entregue, com alta (e com uma moca do caraças, diga-se de passagem). Enquanto esperava pelo papel da dita alta, sentei-me um pouco numa cadeira (eram oito da noite e estava cansada). De imediato senti qualquer coisa fria e molhada repassar-me as calças. Levantei-me e tentei identificar o fluído pastoso e da cor da madeira, perfeitamente camuflado com a cadeira. Um auxiliar acorreu, prestável e optimista: "Não se preocupe, é sopa."
SOPA! Eu tinha-me sentado numa cadeira cujo assento estava coberto de SOPA! 
E do Mac Dreamy, nem sombras!





























.jpg)