domingo, maio 20, 2007

112. 120




Your EQ is 120



50 or less: Thanks for answering honestly. Now get yourself a shrink, quick!

51-70: When it comes to understanding human emotions, you'd have better luck understanding Chinese.

71-90: You've got more emotional intelligence than the average frat boy. Barely.

91-110: You're average. It's easy to predict how you'll react to things. But anyone could have guessed that.

111-130: You usually have it going on emotionally, but roadblocks tend to land you on your butt.

131-150: You are remarkable when it comes to relating with others. Only the biggest losers get under your skin.

150+: Two possibilities - you've either out "Dr. Phil-ed" Dr. Phil... or you're a dirty liar.

111. HOJE (H)À NOITE


sábado, maio 19, 2007

110. A CIDADE QUE NAVEGA


La ciudad que navega
A Lisboa hay que verla en el tiempo exacto de un sollozo. Verla toda entera con la primera luz del amanecer, por ejemplo. O verla bien completa con el último reflejo del sol sobre la Rua da Prata. Y después llorar. Porque uno, aunque sea la primera vez que la ve, tiene la impresión de haber vivido antes allí todo tipo de amores truncados, desenlaces violentos, ilusiones perdidas y suicidios ejemplares.
(...)
Lisboa es el nada nunca jamás. Lisboa es para llorar, puro destino y llanto, fado y luz de lágrima. Pero al mismo tiempo es una inmersión radical en la alegría. “Otra vez vuelvo a verte, / ciudad de mi infancia pavorosamente perdida /Ciudad triste y alegre, otra vez sueño aquí”. No es la ciudad blanca que creyó ver un suizo equivocado, sino una ciudad azul de alegres nostalgias inventadas. Sólo en Lisboa puede verse un azul de azules, que es un color que aturde. Lo vio Pedro Tamem, que lo inmortalizó así: “Desde lo alto os hablo, desde donde / añado azul de muchos colores / al otro azul que vuestros ojos ven”.
Enrique Vila-Matas

E é por estas e por outras que eu gosto tanto do Vila-Matas. E que vou começar agora a ler o Doutor Passavento. E que espero gostar muito.

sexta-feira, maio 18, 2007

109. SINGELA HOMENAGEM


Diz que são ouriços.

108. MURAKAMI E O CARNEIRO DESAPARECIDO

Murakami e o seu tradutor para língua inglesa

Já há bastante tempo que eu ficara de dar notícias do carneiro selvagem. Parti com Haruki Murakami em busca dele e andei uns tempos por lá. Mas aqui estão elas .
"Soube da sua morte por um amigo." Com estas palavras se inicia este que é um dos primeiros romances de Murakami. E continua: "Ele viu a notícia quando passava os olhos pelas páginas de um matutino e deu-se ao trabalho de me telefonar a ler o texto."
Se nunca mais sabemos de quem se fala ou a importância que a personagem pode ter no romance, isso é absolutamente indiferente. O que se trata aqui é do carneiro selvagem. O resto são coincidências filhas da mãe. É que há coincidências que não dá mesmo para acreditar. E, no entanto, elas surgem a cada página da obra deste autor.
E de coincidência em coincidência, o narrador vai-se envolvendo (e vai envolvendo-nos) na mais bizarra busca que é possível imaginar: a de um carneiro com características tão especiais que nem é bom conhecê-las! Não é que ele seja um homem demasiado aventureiro, demasiado ousado, ou demasiado curioso, mas a vida tem destas coisas e como fugir delas?
"Tive vontade de mandar tudo às urtigas naquele preciso momento e lançar-me montanha abaixo, sem dar satisfações a ninguém. Porém, a verdade é que isso também não levaria a nada. Estava demasiado envolvido para me safar assim. Só me apetecia gritar. O recurso mais fácil seria pôr-me a chorar, mas de que me serviria? Chorar por chorar, desde há muito que havia coisas que mereciam bem mais as minhas lágrimas, como eu no fundo bem sabia. Fui à cozinha, deitei a mão à garrafa de uísque, despejei cinco dedos num copo e bebi. Foi a única coisa que me passou pela cabeça fazer."
E, apesar de estarmos já bastante adiantados no livro, o mais perturbador está ainda para vir. Encontrará o narrador ou o leitor o carneiro selvagem? Saberá sequer para que anda à sua procura? Encontrará o narrador ou o leitor um sentido para a vida? Um motivo válido para abandonar tudo, mas mesmo tudo, para perseguir carneiros selvagens com uma estrela no dorso?
Constante na literatura de Murakami, a preplexidade acompanha-nos até à última página. E desta para o próximo romance. Não há como fugir ao fascínio.




A publicação em Portugal da obra de Haruki Murakami tem seguido uma ordem tão surpreendente que poderia ser tema de um dos seus romances. Não é fácil estabelecer a cronologia. No entanto, para os interessados, recomendo vivamente o fabuloso site www.harukimurakami.com, onde poderão seguir o fio à meada.




De qualquer modo, o que interessa é ler Murakami, seja lá por que ordem for. Este "Em Busca do Carneiro Selvagem", que faz parte do que é conhecido pela Triologia do Rato (juntamente com Hear the Wind Sing e Pinball), uma das suas primeiras obras, contém já os ingredientes que iriam fazer o sucesso de Murakami em todo o mundo: o humor, o surrealismo, a fuga à realidade pelo fantástico e um retrato pungente do vazio espiritual e da solidão provocados por uma sociedade dominada pela mentalidade da concorrência e do capitalismo desenfreado. Demasiado obcecado por estes temas, dizem alguns dos seus críticos. Fascinantemente fiel às suas obsessões, defendem os seus admiradores. Nada como lê-lo. E já que neste momento temos alguma possibilidade de escolha, talvez seguir a ordem cronológica de publicação, que aqui fica.



De Haruki Murakami encontram-se publicados em tradução portuguesa (as datas são as das publicações dos originais):

Em Busca do Carneiro Selvagem (1982)
Norwegian Wood (1987)
Crónica do Pássaro de Corda (1994)
Sputnik Meu Amor (1999)
Kafka à Beira Mar (2005)





segunda-feira, maio 14, 2007

105. "meme" # 2


Sê paciente; espera

que a palavra amadureça

e se desprenda como um fruto

ao passar o vento que a mereça.


Eugénio de Andrade

(*) Um "meme" é um " gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma".

Resposta ao desafio da Isabel Victor no Caderno de Campo.

Passo agora a tarefa a: Arion maislogs , S. nonblog , Alice A Tradução da Memória , Patrícia Abrotea, Cátia Um Ideal... não muito perfeito.

domingo, maio 13, 2007

104. "meme"


"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido."
Almada Negreiros

(*) Um "meme" é um " gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma".

Resposta ao desafio da Bandida.

passo agora a: Não há Nada como o Realmente, Música do Acaso, Branco e Azul, Caderno de Campo, Lapis Exilis.

quinta-feira, maio 10, 2007

103. AINDA CÁ ESTOU...

a ouvir pessoas que têm muito para contar...
a ver castelos de encantar...


e a registar... com a tal objectiva nova.

Aos meus visitantes fieis e já impacientes: voltarei. Obrigada.

quarta-feira, maio 02, 2007

99. SANTA PACIÊNCIA!


Gosto do "Um Contra Todos". E vejo sempre que posso. Mas nunca deixo de ficar estupefacta! Como é que é possível alguém prestar-se a exibir em público toda a dimensão da sua ignorância com um descaramento absoluto e uma tranquilidade total, quando se encontra inscrito num concurso de cultura geral? E ainda por cima a cultura que ali se exige é realmente muito geral! Nunca a ignorância foi tão longe numa tão serena exibição!
É que os concorrentes não se importam absolutamente nada de expôr despudoradamente a sua falta total de conhecimentos, justificando-se com frases que se tornaram já ícones do programa "Aqui uma pessoa esquece-se de tudo, não é como lá em casa"; "Este tema não é o meu forte"; "Estou inclinado(a) para..."; "Acho que esse nome me diz qualquer coisa".
Eu creio que a minha atitude é reveladora de uma forte tendência masoquista, mas todos os dias lá estou eu, em frente do televisor, para ver professoras (!!!) dizerem que o autor da Mensagem é "um nome conhecido, parece-me", estudantes ignorarem os mais elementares acontecimentos da História de Portugal, ou um professor (???) de educação física dizer que não sabe se o caldo verde se faz com batata ou rabanetes... porque com tomate ele sabia que não era! (E logo eu, que detesto sopa!)
Louvo a pachorra infinita do José Carlos Malato, que consegue ouvir e calar, que remédio tem ele! Lá tem os seus desabafos, mas relamente tem uma paciência infinita!
Mas que país é este, senhores! Eles concorrem a um programa de CULTURA GERAL!!! E depois a língua portuguesa não é "o forte" deles, Fernando Pessoa é "talvez" o autor de... não se sabe de quê. Ao cinema, "infelizmente" vão pouco e quando vão não têm memória "para nomes de realizadores" (uma pessoa não pode ter memória para tudo!). Isadora Duncan é precursora do surrealismo. E o caldo verde faz-se com rabanetes! E quando, por "espírito santo d'orelha" ou "totoloto", a resposta está certa, respiram fundo e deixam escapar um "que sorte!".
Diz o povo que a sorte favorece os audazes. Digo eu, pelo que vejo, que a sorte favorece os ignorantes porque aquelas almas conseguem às vezes sair dali com uns euros no bolso.
É angustiante, asseguro-vos, ter a sensação de que faço parte de uma espécie em vias de extinção que ainda sabe que o James Stewart fez "A Janela Indiscreta" e que o António José da Silva escreveu "As Guerras do Alecrim e da Mangerona".
Santa paciência!

sábado, abril 28, 2007

95. CINCO

O Detesto Sopa teve várias nomeações na corrente dos 5 “blogs que fazem pensar”! Agradeço muito, muito reconhecida aos que o distinguiram com essa honra e espero não os desiludir.
Cabe-me, portanto, como nomeada, nomear os 5.
Ando a adiar esse momento porque me parece tarefa de uma dificuldade acima das minhas capacidades.
E isto porque qualquer blog me faz pensar. Aliás, mal ou bem, qualquer coisa me faz pensar. Não sou capaz de não pensar.
Frequento com regularidade quase diária alguns blogs que me estão próximos e neles encontro sempre boa companhia e motivo para uma descoberta, uma reflexão, um sorriso, um aperto na garganta, uma ansiedade, uma esperança. Esses são os meus blogs de eleição porque ou o coração, ou a razão, ou o simples acaso os colocaram no meu “bairro” da blogosfera. São companheiros com quem convivo por paixão, por amizade ou por simpatia. Outros poderei ter visitado uma vez por acaso, ou de tempos a tempos, ou até mesmo com uma certa regularidade. Uns e outros têm uma coisa em comum: fazem-me pensar.
Uns fazem-me pensar como é deslumbrante descobrir pessoas que de outra forma nem sonharia que existem. Outros fazem-me pensar como é bom ter alguém que quer partilhar a descoberta de um filme, de uma série de televisão, de um escritor, de um artista plástico, de um músico. Outros fazem-me pensar como deve ser difícil ter a coragem de assumir certas opções menos bem aceites pela sociedade. Outros fazem-me pensar como uma piscadela de olho pode ser gratificante. Há também os que me fazem pensar que é lamentável que alguém dedique o seu tempo a desrespeitar os outros, a provocá-los, a amesquinhá-los. Depois temos aqueles que me fazem pensar que felizmente existem blogs porque assim há solidões que se tornam menos dolorosas. Merecem um lugar de destaque os que me fazem pensar como o humor inteligente pode ser uma arma poderosa. E aqueles que me fazem pensar que quando se vive um grande amor é permitido postar quase tudo sem medo do ridículo. Ah, por favor, reservem um espacinho para os que me fazem pensar que uma vida que começa carrega todas as esperanças. E para aqueles que me fazem pensar em lutas muito duras, em dores muito profundas, em alegrias muito grandes. E os que me fazem pensar em cidades, poetas, músicas, culturas, civilizações, formas de pensamento. E os que me fazem pensar em que a vida é curta demais para tudo o que nos falta viver, conhecer, sentir, amar, rir, brincar, inventar, cantar, escrever, pintar, confessar.
A todos, obrigada por me fazerem pensar. E desculpem-me por não conseguir escolher 5.

terça-feira, abril 24, 2007

93. UM BLOG QUE É UM VÍCIO

Atum
Este blog é um dos meus vícios diários. Não sei do que gosto mais, se da esfíngica placidez do Atum, com aquela inabalável certeza de que o mundo lhe pertence, se da magnífica qualidade das fotografias ou do humor subtil dos títulos. Só sei que gosto.

segunda-feira, abril 23, 2007

92. 23 DE ABRIL . DIA MUNDIAL DO LIVRO

Ouço muitas vezes dizer "Com a vida que tenho, não tenho cabeça para ler". Costumo responder "Sem ler, não teria cabeça para a vida que tenho".

quinta-feira, abril 19, 2007

90. E SEBALD PASSOU À FRENTE

Tinha começado a seguir o rasto do Carneiro Selvagem, é verdade, mas resolvi antecipar o prazer de descobrir Austerlitz, de W. G. Sebald, que já há algum tempo aguardava vez na minha longa lista de espera. Folheei-o, demorando-me no mistério das fotografias. Uma remeteu-me para Daniel Blaufuks e o seu recente prémio BES de fotografia - representava um enorme arquivo, existente em Teresin, antiga Theresienstadt, na República Checa, vila-campo de concentração nazi.
Ainda estava longe de saber que Austerlitz me ia envolver num percurso sinuoso pela memória e pela história mas, lidas as primeiras páginas, não me foi já possível voltar atrás. Sem um parágrafo, porque isto das viagens ao fundo da memória não devem ter nada a perturbá-las, sob pena de se perder o fio por vezes tão perigosamente ténue da narrativa, deixei-me levar por Austerlitz. Não sabia para onde ia, mas o próprio Austerlitz também o ignorava, pelo menos até ao momento em que penetrou naquela sala de espera de uma estação de caminhos de ferro, encerrada no esquecimento e no segredo desde a guerra. A viagem de Sebald vai bem fundo, bem dentro dessa máquina terrível de aniquilar consciências e memórias, agarra-se como um náufrago às recordações, debate-se para não se deixar afogar, luta, e volta à superfície. Para contar, com aparente tranquilidade, com enganoso desprendimento, numa prosa hipnotizante, irresistível, a importância de manter as recordações vivas.
Um dos mais belos, mais invulgares e mais fascinantes romances que me foi dado ler.
Não havia como lhe fugir. A minha lista de espera engrossou consideravelmente com a inclusão de todos os outros Sebald.
Mas agora é a vez de Murakami e do Carneiro Selvagem.

segunda-feira, abril 16, 2007

Para saber mais http://www.lalys-ofilme.blogspot.com/

89. para sempre

Foto de M.E.C. (Seia, Serra da Estrela, 1974)

Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.
Vergílio Ferreira

sábado, abril 14, 2007

terça-feira, abril 10, 2007

86. A POESIA HOJE


Não posso adiar o amor para outro século

não posso

ainda que o grito sufoque na garganta

ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob montanhas cinzentas

e montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e ódio


Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas

e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa

segunda-feira, abril 09, 2007

85. THE MUPPET PERSONALITY TEST

You Are Rowlf the Dog


Mellow and serious, you enjoy time alone cultivating your talents.
You're a cool dog, and you always present a relaxed vibe.
A talented pianist, you can play almost anything - especially songs by Beethoven.
"My bark is worse than my bite, and my piano playing beats 'em both."

Já há algum tempo o valter aconselhava na sua casadeosso o teste em questão e hoje fui até lá. Valeu a pena. O valter ficou muito feliz com o resultado do dele, eu nem sequer sei tocar piano... mas diverti-me.

84. COISAS DE QUE TENHO SAUDADES IV

Hoje, domingo de Páscoa, tive saudades de estrear um vestido de Verão, o primeiro da temporada, e ir para a rua saudar a chegada do calor e do bom tempo. Esteve um dia sombrio, caprichoso, meio chuvoso, enlameado, birrento, mal-humorado e descorado. E eu, que nunca liguei a esta época, tive saudades. Tive saudades das cores da Páscoa. De um céu azul a perder de vista. De um sol generoso e transbordante, a derramar-se sobre Lisboa. De descer até aos Restauradores no Elevador da Glória e ir passear o meu vestido novo – azul claro, de preferência - pela Avenida da Liberdade. Do cor-de-rosa-azul-verde das amêndoas, dos tons pastel daquelas que representavam minúsculos bebés muito perfeitinhos, enrolados em cobertorzinhos, das cores brilhantes das pratas dos ovos de chocolate, que me piscavam um olho sedutor nas montras das pastelarias. Hoje, os supermercados estão cheios deles, mas são incapazes de um gesto de sedução, são uns desapaixonados! Mas, curiosamente, do que tive mesmo saudades foi de ir à Praça da Figueira com a minha avó.
A minha avó paterna era o que se pode, com toda a honestidade, classificar como uma avó doce. Era cor-de-rosa como as amêndoas, vestia-se sempre de cores clarinhas, tinha o cabelo todo branco, um sorriso doce como não existe outro, a pele macia de seda e cheirava a pó de arroz, a sabonete, a alfazema. Fazia anos em Abril e a casa enchia-se de flores. Flores cujas cores realçavam o tom rosado da satisfação que a envolvia.
Nestes primeiros dias de sol e temperatura morna, a minha avó calçava os sapatos de salto alto, verificava se tinha o porta-moedas abastecido, punha o chapéu - que uma senhora não saía “em cabelo” - e dizia-me “Anda, vamos à Baixa!”. E aquele “à Baixa” implicava obrigatoriamente a Praça da Figueira! Como era fascinante a Praça da Figueira! Toda construída em ferro, ocupava a área central da actual praça, e tivera fama de ser um dos mais elegantes mercados da Europa, aquando da sua inauguração, em 1885. Na Praça da Figueira vendia-se de tudo um pouco, era o mercado onde se abastecia grande parte da população de Lisboa. Mas, para mim, ir à Praça da Figueira com a minha avó significava voltar para casa com um fogareirozinho, uns tachinhos ou umas panelinhas em barro ou lata, um ferro de engomar mesmo de ferro, embora miniatural, e também um abano pequenino, para espevitar as brasas, igualzinho aos grandes que se usavam lá em casa, na cozinha.
Tenho saudades de sentir um prazer tão grande com uma compra como o que sentia ao decidir-me entre uma tosca panela ou um fogareiro coxo, enquanto debaixo dos meus pés se amassavam folhas de couves e talos de grelos, indiferentes à limpeza dos meus sapatos brancos, novos.
Mas se calhasse estarmos mais perto do mês dos Santos e das marchas (e o Bairro Alto era vencedor quase garantido), então a compra era outra. Para além do indispensável manjerico, eu havia de levar para casa, criteriosamente escolhido, após inúmeros testes todos igualmente “científicos” para nos assegurarmos de que se tratava de um vigoroso exemplar, bem pretinho dentro da sua gaiola de madeira de cores garridas, o Grilo, que iria com o seu canto absolutamente mágico povoar de cantigas as noites de um Verão que se desejava longo.

Tenho saudades de, feitas as compras, ir à Confeitaria Nacional, na esquina da Praça da Figueira, e sentar-me a uma mesa, sobre a qual colocava os meus tesouros recentemente adquiridos, enquanto esperava o galão morno e o “húngaro”. E posso assegurar que nunca houve melhores húngaros em toda a cidade de Lisboa!

A foto do grilo, que temo muito comece a ser um animal raro para os habitantes da cidade, só foi possível porque a roubei em quicoarreliado.blogs.sapo.