
Gosto do "Um Contra Todos". E vejo sempre que posso. Mas nunca deixo de ficar estupefacta! Como é que é possível alguém prestar-se a exibir em público toda a dimensão da sua ignorância com um descaramento absoluto e uma tranquilidade total, quando se encontra inscrito num concurso de cultura geral? E ainda por cima a cultura que ali se exige é realmente muito geral! Nunca a ignorância foi tão longe numa tão serena exibição!
É que os concorrentes não se importam absolutamente nada de expôr despudoradamente a sua falta total de conhecimentos, justificando-se com frases que se tornaram já ícones do programa "Aqui uma pessoa esquece-se de tudo, não é como lá em casa"; "Este tema não é o meu forte"; "Estou inclinado(a) para..."; "Acho que esse nome me diz qualquer coisa".
Eu creio que a minha atitude é reveladora de uma forte tendência masoquista, mas todos os dias lá estou eu, em frente do televisor, para ver professoras (!!!) dizerem que o autor da Mensagem é "um nome conhecido, parece-me", estudantes ignorarem os mais elementares acontecimentos da História de Portugal, ou um professor (???) de educação física dizer que não sabe se o caldo verde se faz com batata ou rabanetes... porque com tomate ele sabia que não era! (E logo eu, que detesto sopa!)
Louvo a pachorra infinita do José Carlos Malato, que consegue ouvir e calar, que remédio tem ele! Lá tem os seus desabafos, mas relamente tem uma paciência infinita!
Mas que país é este, senhores! Eles concorrem a um programa de CULTURA GERAL!!! E depois a língua portuguesa não é "o forte" deles, Fernando Pessoa é "talvez" o autor de... não se sabe de quê. Ao cinema, "infelizmente" vão pouco e quando vão não têm memória "para nomes de realizadores" (uma pessoa não pode ter memória para tudo!). Isadora Duncan é precursora do surrealismo. E o caldo verde faz-se com rabanetes! E quando, por "espírito santo d'orelha" ou "totoloto", a resposta está certa, respiram fundo e deixam escapar um "que sorte!".
Diz o povo que a sorte favorece os audazes. Digo eu, pelo que vejo, que a sorte favorece os ignorantes porque aquelas almas conseguem às vezes sair dali com uns euros no bolso.
É angustiante, asseguro-vos, ter a sensação de que faço parte de uma espécie em vias de extinção que ainda sabe que o James Stewart fez "A Janela Indiscreta" e que o António José da Silva escreveu "As Guerras do Alecrim e da Mangerona".
Santa paciência!