quarta-feira, maio 02, 2007

99. SANTA PACIÊNCIA!


Gosto do "Um Contra Todos". E vejo sempre que posso. Mas nunca deixo de ficar estupefacta! Como é que é possível alguém prestar-se a exibir em público toda a dimensão da sua ignorância com um descaramento absoluto e uma tranquilidade total, quando se encontra inscrito num concurso de cultura geral? E ainda por cima a cultura que ali se exige é realmente muito geral! Nunca a ignorância foi tão longe numa tão serena exibição!
É que os concorrentes não se importam absolutamente nada de expôr despudoradamente a sua falta total de conhecimentos, justificando-se com frases que se tornaram já ícones do programa "Aqui uma pessoa esquece-se de tudo, não é como lá em casa"; "Este tema não é o meu forte"; "Estou inclinado(a) para..."; "Acho que esse nome me diz qualquer coisa".
Eu creio que a minha atitude é reveladora de uma forte tendência masoquista, mas todos os dias lá estou eu, em frente do televisor, para ver professoras (!!!) dizerem que o autor da Mensagem é "um nome conhecido, parece-me", estudantes ignorarem os mais elementares acontecimentos da História de Portugal, ou um professor (???) de educação física dizer que não sabe se o caldo verde se faz com batata ou rabanetes... porque com tomate ele sabia que não era! (E logo eu, que detesto sopa!)
Louvo a pachorra infinita do José Carlos Malato, que consegue ouvir e calar, que remédio tem ele! Lá tem os seus desabafos, mas relamente tem uma paciência infinita!
Mas que país é este, senhores! Eles concorrem a um programa de CULTURA GERAL!!! E depois a língua portuguesa não é "o forte" deles, Fernando Pessoa é "talvez" o autor de... não se sabe de quê. Ao cinema, "infelizmente" vão pouco e quando vão não têm memória "para nomes de realizadores" (uma pessoa não pode ter memória para tudo!). Isadora Duncan é precursora do surrealismo. E o caldo verde faz-se com rabanetes! E quando, por "espírito santo d'orelha" ou "totoloto", a resposta está certa, respiram fundo e deixam escapar um "que sorte!".
Diz o povo que a sorte favorece os audazes. Digo eu, pelo que vejo, que a sorte favorece os ignorantes porque aquelas almas conseguem às vezes sair dali com uns euros no bolso.
É angustiante, asseguro-vos, ter a sensação de que faço parte de uma espécie em vias de extinção que ainda sabe que o James Stewart fez "A Janela Indiscreta" e que o António José da Silva escreveu "As Guerras do Alecrim e da Mangerona".
Santa paciência!

sábado, abril 28, 2007

95. CINCO

O Detesto Sopa teve várias nomeações na corrente dos 5 “blogs que fazem pensar”! Agradeço muito, muito reconhecida aos que o distinguiram com essa honra e espero não os desiludir.
Cabe-me, portanto, como nomeada, nomear os 5.
Ando a adiar esse momento porque me parece tarefa de uma dificuldade acima das minhas capacidades.
E isto porque qualquer blog me faz pensar. Aliás, mal ou bem, qualquer coisa me faz pensar. Não sou capaz de não pensar.
Frequento com regularidade quase diária alguns blogs que me estão próximos e neles encontro sempre boa companhia e motivo para uma descoberta, uma reflexão, um sorriso, um aperto na garganta, uma ansiedade, uma esperança. Esses são os meus blogs de eleição porque ou o coração, ou a razão, ou o simples acaso os colocaram no meu “bairro” da blogosfera. São companheiros com quem convivo por paixão, por amizade ou por simpatia. Outros poderei ter visitado uma vez por acaso, ou de tempos a tempos, ou até mesmo com uma certa regularidade. Uns e outros têm uma coisa em comum: fazem-me pensar.
Uns fazem-me pensar como é deslumbrante descobrir pessoas que de outra forma nem sonharia que existem. Outros fazem-me pensar como é bom ter alguém que quer partilhar a descoberta de um filme, de uma série de televisão, de um escritor, de um artista plástico, de um músico. Outros fazem-me pensar como deve ser difícil ter a coragem de assumir certas opções menos bem aceites pela sociedade. Outros fazem-me pensar como uma piscadela de olho pode ser gratificante. Há também os que me fazem pensar que é lamentável que alguém dedique o seu tempo a desrespeitar os outros, a provocá-los, a amesquinhá-los. Depois temos aqueles que me fazem pensar que felizmente existem blogs porque assim há solidões que se tornam menos dolorosas. Merecem um lugar de destaque os que me fazem pensar como o humor inteligente pode ser uma arma poderosa. E aqueles que me fazem pensar que quando se vive um grande amor é permitido postar quase tudo sem medo do ridículo. Ah, por favor, reservem um espacinho para os que me fazem pensar que uma vida que começa carrega todas as esperanças. E para aqueles que me fazem pensar em lutas muito duras, em dores muito profundas, em alegrias muito grandes. E os que me fazem pensar em cidades, poetas, músicas, culturas, civilizações, formas de pensamento. E os que me fazem pensar em que a vida é curta demais para tudo o que nos falta viver, conhecer, sentir, amar, rir, brincar, inventar, cantar, escrever, pintar, confessar.
A todos, obrigada por me fazerem pensar. E desculpem-me por não conseguir escolher 5.

terça-feira, abril 24, 2007

93. UM BLOG QUE É UM VÍCIO

Atum
Este blog é um dos meus vícios diários. Não sei do que gosto mais, se da esfíngica placidez do Atum, com aquela inabalável certeza de que o mundo lhe pertence, se da magnífica qualidade das fotografias ou do humor subtil dos títulos. Só sei que gosto.

segunda-feira, abril 23, 2007

92. 23 DE ABRIL . DIA MUNDIAL DO LIVRO

Ouço muitas vezes dizer "Com a vida que tenho, não tenho cabeça para ler". Costumo responder "Sem ler, não teria cabeça para a vida que tenho".

quinta-feira, abril 19, 2007

90. E SEBALD PASSOU À FRENTE

Tinha começado a seguir o rasto do Carneiro Selvagem, é verdade, mas resolvi antecipar o prazer de descobrir Austerlitz, de W. G. Sebald, que já há algum tempo aguardava vez na minha longa lista de espera. Folheei-o, demorando-me no mistério das fotografias. Uma remeteu-me para Daniel Blaufuks e o seu recente prémio BES de fotografia - representava um enorme arquivo, existente em Teresin, antiga Theresienstadt, na República Checa, vila-campo de concentração nazi.
Ainda estava longe de saber que Austerlitz me ia envolver num percurso sinuoso pela memória e pela história mas, lidas as primeiras páginas, não me foi já possível voltar atrás. Sem um parágrafo, porque isto das viagens ao fundo da memória não devem ter nada a perturbá-las, sob pena de se perder o fio por vezes tão perigosamente ténue da narrativa, deixei-me levar por Austerlitz. Não sabia para onde ia, mas o próprio Austerlitz também o ignorava, pelo menos até ao momento em que penetrou naquela sala de espera de uma estação de caminhos de ferro, encerrada no esquecimento e no segredo desde a guerra. A viagem de Sebald vai bem fundo, bem dentro dessa máquina terrível de aniquilar consciências e memórias, agarra-se como um náufrago às recordações, debate-se para não se deixar afogar, luta, e volta à superfície. Para contar, com aparente tranquilidade, com enganoso desprendimento, numa prosa hipnotizante, irresistível, a importância de manter as recordações vivas.
Um dos mais belos, mais invulgares e mais fascinantes romances que me foi dado ler.
Não havia como lhe fugir. A minha lista de espera engrossou consideravelmente com a inclusão de todos os outros Sebald.
Mas agora é a vez de Murakami e do Carneiro Selvagem.

segunda-feira, abril 16, 2007

Para saber mais http://www.lalys-ofilme.blogspot.com/

89. para sempre

Foto de M.E.C. (Seia, Serra da Estrela, 1974)

Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.
Vergílio Ferreira

sábado, abril 14, 2007

terça-feira, abril 10, 2007

86. A POESIA HOJE


Não posso adiar o amor para outro século

não posso

ainda que o grito sufoque na garganta

ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob montanhas cinzentas

e montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e ódio


Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas

e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa

segunda-feira, abril 09, 2007

85. THE MUPPET PERSONALITY TEST

You Are Rowlf the Dog


Mellow and serious, you enjoy time alone cultivating your talents.
You're a cool dog, and you always present a relaxed vibe.
A talented pianist, you can play almost anything - especially songs by Beethoven.
"My bark is worse than my bite, and my piano playing beats 'em both."

Já há algum tempo o valter aconselhava na sua casadeosso o teste em questão e hoje fui até lá. Valeu a pena. O valter ficou muito feliz com o resultado do dele, eu nem sequer sei tocar piano... mas diverti-me.

84. COISAS DE QUE TENHO SAUDADES IV

Hoje, domingo de Páscoa, tive saudades de estrear um vestido de Verão, o primeiro da temporada, e ir para a rua saudar a chegada do calor e do bom tempo. Esteve um dia sombrio, caprichoso, meio chuvoso, enlameado, birrento, mal-humorado e descorado. E eu, que nunca liguei a esta época, tive saudades. Tive saudades das cores da Páscoa. De um céu azul a perder de vista. De um sol generoso e transbordante, a derramar-se sobre Lisboa. De descer até aos Restauradores no Elevador da Glória e ir passear o meu vestido novo – azul claro, de preferência - pela Avenida da Liberdade. Do cor-de-rosa-azul-verde das amêndoas, dos tons pastel daquelas que representavam minúsculos bebés muito perfeitinhos, enrolados em cobertorzinhos, das cores brilhantes das pratas dos ovos de chocolate, que me piscavam um olho sedutor nas montras das pastelarias. Hoje, os supermercados estão cheios deles, mas são incapazes de um gesto de sedução, são uns desapaixonados! Mas, curiosamente, do que tive mesmo saudades foi de ir à Praça da Figueira com a minha avó.
A minha avó paterna era o que se pode, com toda a honestidade, classificar como uma avó doce. Era cor-de-rosa como as amêndoas, vestia-se sempre de cores clarinhas, tinha o cabelo todo branco, um sorriso doce como não existe outro, a pele macia de seda e cheirava a pó de arroz, a sabonete, a alfazema. Fazia anos em Abril e a casa enchia-se de flores. Flores cujas cores realçavam o tom rosado da satisfação que a envolvia.
Nestes primeiros dias de sol e temperatura morna, a minha avó calçava os sapatos de salto alto, verificava se tinha o porta-moedas abastecido, punha o chapéu - que uma senhora não saía “em cabelo” - e dizia-me “Anda, vamos à Baixa!”. E aquele “à Baixa” implicava obrigatoriamente a Praça da Figueira! Como era fascinante a Praça da Figueira! Toda construída em ferro, ocupava a área central da actual praça, e tivera fama de ser um dos mais elegantes mercados da Europa, aquando da sua inauguração, em 1885. Na Praça da Figueira vendia-se de tudo um pouco, era o mercado onde se abastecia grande parte da população de Lisboa. Mas, para mim, ir à Praça da Figueira com a minha avó significava voltar para casa com um fogareirozinho, uns tachinhos ou umas panelinhas em barro ou lata, um ferro de engomar mesmo de ferro, embora miniatural, e também um abano pequenino, para espevitar as brasas, igualzinho aos grandes que se usavam lá em casa, na cozinha.
Tenho saudades de sentir um prazer tão grande com uma compra como o que sentia ao decidir-me entre uma tosca panela ou um fogareiro coxo, enquanto debaixo dos meus pés se amassavam folhas de couves e talos de grelos, indiferentes à limpeza dos meus sapatos brancos, novos.
Mas se calhasse estarmos mais perto do mês dos Santos e das marchas (e o Bairro Alto era vencedor quase garantido), então a compra era outra. Para além do indispensável manjerico, eu havia de levar para casa, criteriosamente escolhido, após inúmeros testes todos igualmente “científicos” para nos assegurarmos de que se tratava de um vigoroso exemplar, bem pretinho dentro da sua gaiola de madeira de cores garridas, o Grilo, que iria com o seu canto absolutamente mágico povoar de cantigas as noites de um Verão que se desejava longo.

Tenho saudades de, feitas as compras, ir à Confeitaria Nacional, na esquina da Praça da Figueira, e sentar-me a uma mesa, sobre a qual colocava os meus tesouros recentemente adquiridos, enquanto esperava o galão morno e o “húngaro”. E posso assegurar que nunca houve melhores húngaros em toda a cidade de Lisboa!

A foto do grilo, que temo muito comece a ser um animal raro para os habitantes da cidade, só foi possível porque a roubei em quicoarreliado.blogs.sapo.

sexta-feira, abril 06, 2007

82. AINDA A PÁSCOA

Encontrei-o por aqui. Ia a correr e já um pouco atrasado.

81. PÁSCOA FELIZ!

O coelho foi retirado de um site exclusivamente dedicado ao tema "coelhos a bocejar". Espero sinceramente que vos pareça tão fascinante quanto me pareceu a mim. Uma boa Páscoa!

quarta-feira, abril 04, 2007

78. HOUVE O TEMPO

Houve o tempo em que os jardins eram livres e as pessoas os utilizavam sempre que lhes apetecia. As portas estavam abertas. As piscinas animavam-se com os risos das crianças e os splashes das águas, que se agitavam com as suas brincadeiras. Sentados nas cadeiras de verga, os adultos observavam os seus jogos, relaxavam, apanhavam sol, liam, ouviam música ou deixavam simplesmente o tempo escoar-se por entre os dedos entreabertos e preguiçosos.
Houve o tempo em que os jardins eram permitidos, sem condições.

terça-feira, abril 03, 2007

77. HOJE


Vou partir em busca do carneiro selvagem. Isto, claro está, depois de ver dois (ou talvez três, quem sabe) episódios de Prison Break.

domingo, abril 01, 2007

76. POR QUE GOSTO DE CINEMA # 5

75. PRIMAVERA

Todos os anos ela faz isto. Ainda mal se anuncia a Primavera, ela desponta em flores. Sem dizer nada, sem exigir nada em troca. Por pura generosidade. Faz isto há anos. Nunca falha. Não é para se exibir. Não se ofende se não lhe dissermos nada, se não lhe ligarmos importância. Quanto muito poderá fazer florir mais uma haste, com a mesma generosidade e boa vontade com que nos deu esta. Pode ser que a gente repare na segunda, se por acaso ignorámos a primeira. Já chegou ao ponto de fazer florir quatro hastes numa só Primavera. Desinteressadamente. Mas, bem lá no fundo, ela sabe que lhe agradecemos e que a Primavera já não nos saberia a nada sem as suas flores. Ela sabe que num só vaso contém toda a beleza dos jardins míticos, que é imensa e deslumbrante. A única coisa que pede é um pouco de água. Mas eu pensei que ela ficaria feliz se lhe dedicasse um post. Acho que é o mínimo que posso fazer. E pronto.

terça-feira, março 27, 2007

74. LIBERDADE

Foto de manHa


Liberté


Sur mes cahiers d'écolier

Sur mon pupitre et les arbres

Sur le sable de neige

J'écris ton nom

Sur les pages lues

Sur toutes les pages blanches

Pierre sang papier ou cendre

J'écris ton nom

Sur les images dorées

Sur les armes des guerriers

Sur la couronne des rois

J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert

Sur les nids sur les genêts

Sur l'écho de mon enfance

J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur

Sur l'étang soleil moisi

Sur le lac lune vivante

J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon

Sur les ailes des oiseaux

Et sur le moulin des ombres

J'écris ton nom

Sur chaque bouffées d'aurore

Sur la mer sur les bateaux

Sur la montagne démente

J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages

Sur les sueurs de l'orages

Sur la pluie épaisse et fade

J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes

Sur les cloches des couleurs

Sur la vérité physique

J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés

Sur les routes déployées

Sur les places qui débordent

J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume

Sur la lampe qui s'éteint

Sur mes raisons réunies

J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux

Du miroir et de ma chambre

Sur mon lit coquille vide

J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre

Sur ses oreilles dressées

Sur sa patte maladroite

J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte

Sur les objets familiers

Sur le flot du feu béni

J'écris ton nom

Sur toute chair accordée

Sur le front de mes amis

Sur chaque main qui se tend

J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises

Sur les lèvres attendries

Bien au-dessus du silence

J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits

Sur mes phares écroulés

Sur les murs de mon ennui

J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir

Sur la solitude nue

Sur les marches de la mort

J'écris ton nom

Sur la santé revenue

Sur le risque disparu

Sur l'espoir sans souvenir

J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot

Je recommence ma vie

Je suis né pour te connaître

Pour te nommer

Liberté.


Paul Eluard

in Poésies et vérités 1942

domingo, março 11, 2007

66. COISAS DE QUE NÃO TENHO SAUDADES 1


Liceu D. Filipa de Lencastre. Aqui, antigo 3º ano (7º actual?). Bata branca, abotoada nas costas (raras excepções). Emblema do liceu no lado esquerdo da bata, emblema da Mocidade Portuguesa no lado direito (em caso de extravio, falta de castigo). Calças, proibido; mangas curtas, proibido; bata sem cinto, proibido.

sexta-feira, março 09, 2007

64. PARABÉNS! PARABÉNS!

Parabéns à RTP, que fez cinquenta anos! Eu sei que me atrasei, mas tudo bem, ainda vou a tempo.
Eu gosto da RTP. Temos ambas Portugal no coração. Foi bom ver que a nossa televisão, de todos nós, ao entrar na idade das "primeiras" rugas conseguiu levantar cabeça e ressurgir, rejuvenescida, cheia de vigor. Todos nos regozijamos com isso.
E, contudo, vejo uma sombra toldar esse regozijo. Vejo ânimos um pouco agitados. Vejo corações magoados no seu orgulho nacional. Engraçado verificar que em Portugal não há fome que não dê em fartura. Passado o tempo de nos envergonharmos de tudo o que era portugês, chegou a época de empunharmos a bandeira do nacionalismo. Ora ainda bem! Melhor assim.
Contudo, neste momento, não percebo bem as razões.
Tudo se deu por causa de uma coincidência de datas na transmissão de dois programas televisivos.
Na RTP 1 era exibida a gala dos 50 anos. Normal, visto que era o dia do aniversário. Na TVI era transmitida uma outra gala, esta da eleição das 7 Maravilhas do Mundo. A data? 7 de Março, tal como vai ser a 7-7 a transmissão da final. De 2007, pois. A organização do acontecimento escolheu o dia por ser 7.
E pronto. Havia duas galas, é verdade. À mesma hora, no mesmo dia. Qual é o problema? Ainda vamos tendo público para encher a deitar por fora o Campo Pequeno e o Coliseu. Cerca da meia noite, Lisboa era uma festa. O fluxo de trânsito que vinha das Portas de Santo Antão juntou-se ao que saía do Campo Pequeno. Alguns encontraram-se a meio caminho, no Galeto, e trocaram impressões. Viste? Vi. Gostaste? Gostei. E tu? Hum... assim, assim.
Era de festa, o ambiente. Uns gostaram mais disto, outros daquilo. Felizmente os gostos não são iguais e a opinião é livre.
Nada me levava a crer que uma inquietação bem diferente alastrava por aí. "Os sacanas da TVI fizeram isto para lixar a RTP", chegou-me aos ouvidos.
Lixar? Porquê? Somos um país pequenino, mas temos público suficientemente adulto para saber optar pelo programa que mais lhe interessa. Ninguém lixou ninguém. Aliás, se alguém ficou prejudicado, foi a TVI, cujas audências para um programa daqueles poderiam ter sido infinitamente maiores se não coincidisse com a festa da RTP. Assim, foi batida pelo 1º canal em dia de celebrações contínuas. Como aliás era fácil de prever: os 50 anos da televisão nacional é tema do interesse de um público muito mais vasto, espalhado por esse país fora, do que a eleição de algo um pouco vago que dá pelo nome de 7 maravilhas do mundo. De um lado o público tinha a oportunidade de rever as velhas glórias que são a nossa memória colectiva, ao longo dos últimos 50 anos, do outro lado, podia assitir a um espectáculo sobre os monumentos do mundo dignos de se baterem pelo título de maravilhas.
Não há concorrência.
Para além disso, em que é que isso prejudica o espectador? Para já, não vai certamente tardar em poder assitir ao programa que deixou de ver (seja ele qual for) e que será certamente , como é hábito, repetido no fim de semana, de manhã, à tarde, à noite e até ninguém o poder já aguentar. Por outro lado, ninguém o impediu de ver fosse o que fosse: deram-lhe a escolher. E ele escolheu livremente.
Eu vi (ao vivo e a cores) o programa do Campo Pequeno e gostei. Gostei mesmo muito. Não sei se na televisão resultou da mesma forma, é possível que sim, ou que não. Mas penso rever.
Não vi o da RTP, portanto não sei se gosto ou não. Mas espero também vir a ver.
Não creio que sejam programas para se comparar, são dois espectáculos, cada um no seu género. Parabéns à RTP, que é a menina dos anos e parabéns à TVI e ao La Féria que nos proporcionaram uma noite de entretenimento absolutamente inesquecível, seja em que parte for do mundo.
Provavelmente terão até sido dois bons espectáculos. Mas, por muito festivos que sejam os acontecimentos que lhes deram origem, não passam de programas de televisão.
Nem tudo tem de ser o Benfica-Sporting!
No dia 7-7-07 vai ser a final das 7 Maravilhas. Acho que não vou assitir... é no estádio do Benfica e cá por casa as tendências são predominantemente verdes.

quarta-feira, março 07, 2007

63. POR QUE GOSTO DE CINEMA # 3

62. COISAS DE QUE TENHO SAUDADES III

Eu nasci no Bairro Alto. Não é a mesma coisa do que nascer em Lisboa. É muito mais. Nasci no Bairro Alto, portanto. Não no BA, como quiseram a uma dada altura chamar-lhe, nem no Bairro, como efectivamente lhe chamam. Não. No Bairro Alto, exactamente.
Havia o Conservatório, mesmo em frente da minha casa, havia as velhas instalações onde todos os dias explodiam para a rua os jornais – de manhã o Século, à tarde o Diário de Lisboa, a República, a Capital – havia o Hospital de São Luís dos Franceses, o elevador da Glória, S. Pedro de Alcântara, o Príncipe Real. Ao lado da minha casa vivia o António Ferro e a Fernanda de Castro. Das janelas que davam para as minhas, o Bernardo Marques desenhava as varinas e os gatos do nosso bairro e a Ofélia Marques iria lançar-se um dia ao encontro da morte.
Tenho saudades desse Bairro Alto. E tenho saudades de ouvir o meu avô contar as histórias de um Bairro Alto muito mais antigo, que ele próprio recordava com saudade. Porque o meu avô era do Bairro Alto, tal como a minha avó e o meu pai. Com nome em tabuleta de estabelecimento reputado, para que não restassem dúvidas. Marcenaria 1º de Dezembro. Que eu já só conheci na saudade do meu avô.

O meu avô era, portanto, um lisboeta, um alfacinha, nado e criado no Bairro Alto, bairrista e cheio de pergaminhos. Figura à António Silva, gestos à António Silva, humor à António Silva, o meu avô passara as noites da sua juventude a divertir-se nos teatros, na ópera e na revista, e a saciar o seu jovem apetite no Tavares e no Marrare. Uma vez por outra, aos domingos, a família saía de Lisboa, para fazer piqueniques e burricadas no Campo Pequeno. Nos meses de Verão retiravam-se para Queluz, para trocarem os ares pesados da cidade pelos ares livres de poluição da província.
Tenho saudades de ouvir o meu avô contar como era essa Lisboa de carruagens, tipóias, cavalos, camarotes no teatro, noites na ópera, cocheiros, trintanários e lavadeiras que iam buscar a trouxa para lavar a roupa no rio, em Caneças. Tenho saudades da sua saudade dos tempos de jovem artista, aluno de Belas Artes, livre, desocupado, amante da boémia, de Sevilha, de zarzuelas e das espanholas. Quando a vida ainda era fácil e amena. Saudades da forma como ele falava da minha avó, sua noiva menina de quinze anos - não havia rapariga mais bonita em Lisboa - paixão incondicional para sempre, até que a morte os separasse.

Tenho saudades de ir pela mão do meu avô pela Rua da Rosa e senti-lo abrandar o passo, demorar-se mais. Era aqui. Rua da Rosa, 168.

61. eva armisén dixit