
Depois de termos andado com o coração nas mãos por causa de um fígado, depois de ter o coração partido por coisas que não são para aqui chamadas, depois de ter de admitir que coração e cabeça nem sempre (ou quase nunca) conseguem estar de acordo, depois de me abeirar perigosamente da loucura graças aos demolidores de apartamentos sem coração, chegou o dia de prestar a minha singela homenagem aos corações da minha terra, corações românticos, corações grandes, corações enormes, corações irrealistas, corações singelos, corações fieis, corações de leão, corações de cordeiro, corações ao alto, corações de fado, corações verde-rubros, corações sensíveis, corações generosos, corações volúveis, corações honestos, corações inflamáveis, corações nossos.









Saudades dos pregões das varinas, ó viva da costa! das mulheres que apregoavam “quem quer figos, quem quer almoçar”, do som das gaitas dos amola tesouras e navalhas (“amanhã vai chover, menina, está a ouvir a gaita?”). Saudades do meu gato Janota, gordo e dourado, dormindo no parapeito da escada. E da escada, onde o armazém de papel no rés-do-chão desafiava todas as normas de segurança e faria o desespero de qualquer corpo de bombeiros. Saudades da mercearia e dos cartuchos de papel grosso, acinzentado, com uma risca fininha lilás, para onde era pesado um quilo de açúcar escuro, tirado do enorme pote de louça ou os 250 gramas de bolacha Maria, a que vinha na caixa que tinha uma menina que estava numa caixa que tinha uma menina que estava numa caixa que etc. Saudades do quarto dos meus avós, de pé direito altíssimo que eu admirava deitada na cama enorme, por entre lençóis brancos, almofadas de rendas e folhos, a cheirar a sabão e flores.
Saudades de esperar à janela, ao cair da noite, que o meu pai chegasse a casa.



Fui ver a Moby Dick, ao S. Luiz. Encontrei lá o Herman José. Mas o Herman Melville, não. Com muita pena minha.



























Franziska Baumann: voz. Jürg Solothurnmann: soprano e alto sax. Christoph Baumann: piano.
